plomo


o quarto
10 Janeiro, 2009, 3:39 pm
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fazia frio dentro do teatro porque fazia verão lá fora. a Augusta ardia cinco minutos antes da tempestade, enquanto ela, a atriz, a peça, só falava em gelo, a neve que cobria tudo lá fora e de como ele gostava de ficar perto do aquecedor, se o chá estava fraco ou forte. é uma sala estreita e profunda, um corredor extenso de paredes brancas descascadas em linhas ortogonais e o chão é preto, de cimento batido. agora ele está alagado, molhado para a peça. sob a luz cênica, a água parece virar vidro estilhaçado, um quebra-cabeça espontâneo e luminoso. ela se deita sobre as poças d’água e vira ponte entre as ilhas desse arquipélago gélido.

as manchas brilhantes são contraponto ao texto seco, desses que eu gosto, que misturam agentes externos aos autores da ação. não diz que fez frio lá fora, diz que fizeram frio lá fora, fizeram gelo lá fora. o tempo, a intempérie vira agente dramático e participa da construção e desconstrução do enredo. as falas seguem um ritmo estranho, como cantos orquestrados entre agudos e graves. a língua se presta à sua função mais nobre: traduzir o que não pode ser visto, e o teatro acompanha ao tocar as cordas vocais dos atores, como se roçasse as cordas de um violino.

minutos antes da peça começar, no Club Noir, mandei uma mensagem a um amigo dizendo que estava triste e fora a uma peça do Pinter sozinho. se tivesse cortado os pulsos, não seria de todo mal jogar sal na ferida. daí veio a chuva para lamber todas elas. os trovões ressoaram na hora em que a atriz, a peça, encontra a luz até então só prometida. sozinha sob um único holofote, no meio daquele calabouço estreito, ela parecia tomar a mesma chuva que então afogava a rua Augusta lá fora. e ela cai na hora do trovão, na hora da estrela.

a peça é “O Quarto”, de Harold Pinter. a atriz é Juliana Galdino, e o Club Noir é um teatro que acabei de descobrir, no começo da Augusta, perto da sorveteria dos vegans.



amor que morre
23 Dezembro, 2008, 2:30 am
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é duro enterrar um amor que morreu. mas descobri que dói também abortar um amor antes dele nascer. nem sei se o que sentia era amor. também não vou ficar sabendo. dói. faz pouco tempo decidi escrever para um antigo amante, o que assina parte dos versos com que defini essa tentativa fútil de escrever, desculpa tola para um diário. vale muito mais minha tinta no papel, mas isso aqui é tribuna pública, virtual, anônima. em todo caso, a resposta dele, ele sim um amor que morreu, não com murmúrios, mas com estrondos, foi que nada podia fazer, que nada quer mais. não importa. nem eu queria, mas ele se retira para se dedicar a uma vida conjugal que lhe toma toda a energia. e assim vai.

agora eu derramei as poucas lágrimas por um amor que não sei se é amor, um romance tolo feito para preencher buraco, a pessoa errada antes que venha acerta. assim me livro do estorvo, do peso. não quero porque dói. e vou começar a ignorar, porque é impossível evitar a verdade. estamos zoados.

impossível saber quando morre o amor até que ele agoniza diante dos olhos, até que ele grita que morreu e cai duro arrancando todas as lágrimas que conseguem se juntar num instante, bem na curva dos pulmões, no céu da boca, no canto dos olhos. não sobra nada até que a gente acha que tem tudo na mão, ou acha que o insuficiente vai juntando poeira até virar pérola em algum lugar e vencido como troféu. então brindamos a morte incerta. e erguemos a cabeça com orgulho de ter levado mais uma bala e sobrevivido pra contar a história. é esse raspão, e todos os chupões que seguem, que gostamos de exibir nas rodas de veteranos. quantas balas é possível levar numa só vida? e vale subir para depois descer?

eis a verdade: o amor que morre não deixa nenhuma nostalgia, e eu diria mesmo, não deixa nada. ou por outra: deixa o tédio. o que nos fica dos amores possuídos e passados é simplesmente o tédio, talvez o ressentimento, talvez o ódio. abominamos o ex-ser amado. intimamente, nós o acusamos de ter destruído o nosso sonho. e vamos e venhamos: que coisa atroz é o amor que deixa de sê-lo. mas o que eu queria dizer é o seguinte: há um equívoco na valsinha nostálgica.

a morte de um amor é pior que a morte pessoal e física. só uma coisa espanta: que se possa sobreviver a um amor.



divas de improviso
21 Dezembro, 2008, 3:37 am
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Erykah Badu, aquela negra, magérrima, do turbante e voz incomparável, canta que é esperta. é aguda até não poder mais e açucarada até afogar todas as mágoas. as notas deslizam, são trovões no breu, incontornáveis. é esperta porque sabe que seus peitos são caídos, sabe que seu vestido não vale nada, mas sabe que o palco é só dela, que o turbante e os alfinetes que sustentam toda sua extravagância de fachada são teias finas de chumbo. Badu não tem algoz, antecipa os ataques porque se expõe, deita no chão, flanco aberto.

this is how I look with out makeup / and with no bra my ninies sag down low / my hair ain’t never hung down to my shoulders / and it might not grow / ya’ never know

but I’m clever when I bust a rhyme / I’m cleva always on ya’ mind / she’s cleva and I really wanna grow / but why come you’re the last to know?

I got a little pot in my belly / and nowadays my figure ain’t so fly / my dress ain’t cost nothin’ but seven dollars / but I made it fly / and I’ll tell ya why


Billie Holiday, a voz mais sofrida do jazz _e sem dúvida a mais bela de todas_ era uma gorda de peitos enormes, sem o menor talento para escolher seus vestidos. levou tudo na voz e na rima. gastou seus dólares fruto das noites de cabaré em novos vestidos, de gosto menos duvidoso. mas ninguém se lembra. depois, nenhum vestido podia importar para quem cantou “Strange Fruit”.

aqui, no planeta fome, Elza Soares estreou na TV com um vestido remendado, alfinetes entrando na carne magra dos flancos, toda desengonçada. era a voz que tomava conta. é outra dessas grandes mulheres que não fizeram esforço para ser só isso, uma grande mulher.



os banhistas
17 Dezembro, 2008, 3:17 am
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uma hora e meia no táxi da Cidade Universitária até a Rebouças é tempo suficiente para pensar em James Dean, na chuva e no tempo azul que fez hoje. eu me emocionava mais com as coisas. lendo o texto traduzido na “Rolling Stone”, sobre um dos primeiros filmes de Dean, me deu vontade de chorar quatro vezes. eu não vi o filme. e também tenho dificuldades em me comover com um texto que já não é o original, mas foram três ou quatro vezes de quase choro, bem no cruzamento da Rebouças com a Paulista. disfarço para o taxista não olhar e vejo o ponto de ônibus apinhado de gente a essa hora da noite.

e a chuva em São Paulo não pára.

nos últimos dias, não paro de pensar nos banhistas de Cézanne, nos dias chuvosos que passei em Dublin e neste parágrafo do “A Portrait of the Artist as a Young Man”:

he recognised their speech collectively before he distinguished their faces. the mere sight of that medley of wet nakedness chilled him to the bone. their bodies, corpsewhite or suffused with a pallid golden light or rawly tanned by the sun, gleamed with the wet of the sea. their divingstone, poised on its rude supports and rocking under their plunges, and the roughhewn stones of the sloping breakwater over which they scrambled in their horseplay gleamed with cold wet lustre. the towels with which they smacked their bodies were heavy with cold seawater; and drenched with cold brine was their matted hair.

faz um tempo que fotografei um menino pelado com os versos de um poema de Walt Whitman projetados sobre a pele. eram esses, do “Leaves of Grass”:

the beards of the young men glistened with wet, it ran from their long hair,

little streams passed all over their bodies.

an unseen hand also passed over their bodies,

it descended tremblingly from their temples and ribs.

the young men float on their backs, their white bellies swell to the sun … they do not ask who seizes fast to them,

they do not know who puffs and declines with pendant and bending arch,

they do not think whom they souse with spray.



vitrola
5 Dezembro, 2008, 3:22 am
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é com alarde que dou notícias velhas. chegou a era do rádio, um que não funciona. numa tarde vazia andando pela São João, gastei os tubos numa vitrola empoeirada dos anos 50. não toca nada, nem parece haver esperança que algum som saia dali, mas é desses móveis quadrados, um grande caixote ortogonal, de madeira, e quatro pernas com encaixes que lembram dedais metálicos nas extremidades.

faz parte das coisas que faço para me enganar. se o amor evaporou e fica cada vez mais evidente que não consigo me apaixonar por pessoas que gostam de mim, é chegado o momento de me iludir com promessas de uma retomada, a redescoberta da vida, a vontade que se renova, aquela coisa de ir à feira da Guimarães Rosa do outro lado da praça e comprar um peixinho dourado, nem que seja uma breve promessa; sei que ele vai morrer.

então é a máquina de expresso que rondou meus pensamentos, essa que casaria muito bem com a vitrola inutilizada, e também a chaise longue de camurça, que disputei na loja com um amigo. são todas as coisas belas que suplantam, aos olhos, a sensação de pertencimento. achar que o carcomido das paredes mofadas dá verniz de legitimidade à existência de agora, vazia.

é tudo lastro, a chaise longue do Le Corbusier, o azul retrô da máquina Nespresso, a vitrola pré-era Braun. as coisas que podiam ter sido e que não foram. nunca tive, nunca vivi. e garranchar com os dedos sujos de suco de tangerina _base de uma nova dieta, mais saudável para tempos sombrios_ no teclado imaculado deste MacBook é outra necessidade premente. isso tudo é só para emoldurar um vazio que se ancora naquilo que se pode chamar glamour, se houvesse ali um segundo lastro, a grana, mas essa escorre sem deixar rastro.

em cima da vitrola, que serve de aparador no canto da minha parede descascada cor creme, ficou o livro que reproduz as gravuras ukiyo-e de Hiroshige. são as cem vistas de Edo, antiga Tóquio, na técnica fugaz que os japoneses inventaram para retratar um mundo flutuante. o monte Fuji vira a catedral de Rouen nas mãos dele, tão delicadas que é impossível não pensar nos caminhões agora liberados para trafegar só à noite _os burros de carga metálicos que descem desembestados pelas vias do centro numa noite sem luz.



Volpi
15 Outubro, 2008, 5:04 am
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acho que esse calor me tira o sono, mas o vento que rasga pelas frestas da janela é frio. foram poucos os telefonemas no fim do dia. também pouca a animação. saí sozinho. era a abertura de uma mostra do Volpi no IAC, aqui na Maria Antonia. não consegui formular frases inteligentes diante dos quadros, só o óbvio de achar Volpi ingênuo, ao mesmo tempo de uma esperteza irritante e um verniz de beleza que sai vazando pelas frestas das janelas das fachadas dele.



CAMOMILA E VAIDADE
16 Maio, 2008, 4:28 am
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não menos jornalista e mais cheio de mim mesmo e de tudo. odeio que não gostem das minhas metáforas, e isso foi assunto de briga no almoço do japonês tosco da Barão de Limeira. e, no fundo, têm razão. por preguiça ou por uma eloqüência espremida entre o lide e o deadline, nada sai a contento. e também não é sempre o caso tentar.

eu tento juntar uma amiga e um amigo. ontem à noite, fui a pé de Higienópolis até a praça, notando as ruas vazias e desviando dos estranhos nas calçadas escuras. na Jaguaribe tem uma igreja, toda combalida em estilo neoclássico, de doer. engraçado como a cidade não pára de ser diferente a cada esquina. e a gente sofre sem fôlego nas ladeiras cheias de faróis.

perdi todas as festas esta semana. e troquei o uísque por chá de camomila, da caixinha amarela que ele me deu pra me acalmar depois que ajudei a levar o colchão pro apartamento do Copan. a planta que durou mais que o nosso namoro foi junto. e na mesa de trabalho aqui em casa as flores de uma reconciliação frustrada já apodreceram, e eu não tenho coragem de limpar as pétalas secas da superfície lisa de livros, computador, telefone e aparatos para encher momentos vazios.

ninguém quer ler Bilac. todos querem um Ginsberg com estilo. a transgressão não me enche, e eu volto a ser parnasiano-bicha sem rumo. camomila não tem propriedades alucinógenas e agora falha de maneira retumbante, como os sinos das igrejas em volta da praça. talvez só Rubem Fonseca agora. por favor.



DIA DO JORNALISTA
8 Abril, 2008, 4:32 am
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o telefone toca às 23h15 num dia depois de 12 horas de trabalho. é meu editor querendo que eu descole uma frase de uma das fontes pra uma matéria que vai fechar amanhã, e eu ainda não jantei. olho pro livro que estou tentando terminar há quase um ano, marcado na página do meio em cima da mesa, e pros óculos de lentes cristalinas do amigo que me faz companhia no La Barca.

hoje é dia do jornalista e a semana começou com um e-mail do sindicato ou sei lá de quem dizendo que é isso, que a gente não tem direito a uma vida pessoal, não tem direito a uma vida afetiva, não tem direito à saúde, porque trabalhar com informação é um privilégio. talvez.

de fato, minha vida pessoal foi pro saco. e lá no fundo do lixo, se perdeu. e agora eu tento voltar aos livros, mas tenho medo de deitar na cama pra ler e voltar a sonhar com os fantasmas de sempre.

o ponto alto do dia foi minha consulta médica na Frei Caneca. as mãos geladas, brancas e enormes do médico apertavam com força minha barriga, minhas coxas, minha bunda. perguntava se doía. perguntei se era pra doer. ele disse que não. e não doía mesmo. foi bom. na luz branca do consultório, tipo frigorífico, estava entregue às mãos de um desconhecido com conhecimento de causa e, lá fora, a noite caía num engarrafamento atroz, de buzinas e estilhaços.

no almoço, fazia calor no largo do Arouche. na mesa, três solteiros e uma quase casada. todos invejaram que ela teria alguém pra esquentar os pés no inverno que se aproxima. triste, idiota, mas verdadeiro demais, tanto que o assunto se perdeu logo em piadas sobre Jack Johnson e música de surfista.



encenação
4 Setembro, 2007, 3:34 am
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estreou no satyros esse domingo el truco, peça que desmonta a mise-en-scène e questiona o real e sua representaçao, a vida e o personagem. é estranho dizer, mas é talvez das peças mais intimistas da companhia. mais do que a autobiográfica a vida na praça roosevelt, que pôs o grupo do rodolfo e do ivam no mapa cultural. estão em cena na nova montagem cada ator, camareiro e garçom da companhia, que dão a vida para se manter no teatro.

escancarar velhos conflitos em cena e confessar o tamanho do ego faz bem, e a peça tem uma autenticidade vibrante. o figurino e direção também estão bem resolvidos, mas o enredo patina e perde o ritmo lá pelas tantas. ainda vale pelo bom humor, que resgatou do mangue uma tarde chuvosa em fim de inverno paulistano.

 

à noite, depois de vinho e jantar com o will, foi a vez de lars von trier se mostrar no reflexo e descortinar a máquina por trás do cinema. o grande chefe é simples e direto, sarcástico na medida certa. os cortes acidentados, a edição tremida dão conta de passar certa impressão de desapego. mas tudo é cálculo numa comédia que se equilibra no tempo justo.

o minimalismo dos cenários, a fotografia lavada e o figurino calado em tons neutros são notas de uma sinfonia do understatement: tudo gira a favor desse humor que expõe o ridículo e a banalidade dos dramas mais sinceros.   



celebridade
28 Agosto, 2007, 1:50 am
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o céu hoje aqui tem aquela linha rosada de poluição, forte no horizonte. mas a umidade parece subir e talvez meu nariz pare de sangrar. a cidade esvaziada anda seca demais.

fui hoje à abertura da exposição de fotos do b.j. duarte na olido. tive que esperar para ver metade dos quadros porque o prefeito e o calil passearam pelo espaço farejados por fotógrafos. alguns mendigos da são joão aproveitavam a boca livre pra tomar um vinho na noite fria.

chama atenção nas fotos o olhar cândido pra infância e uma foto de médicos no hospital das clínicas que parecem presenciar um nascimento. é a metrópole que começava a ganhar corpo e corpo dos cidadãos que fariam dela o que ela é. e mario de andrade já era celebridade na época.