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numa conversa hoje com o editor, planejamos fazer uma foto pra capa do próximo caderno perto de um prédio bizarro na escola politécnica da usp, que eu só consegui descrever como disco voador.
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perto da london eye, que pra olhos chapados pode parecer um disco voador, lembro que um cara uma vez me agarrou e me beijou, ali no queen’s walk. durou pouco e eu subi a blackfriar’s bridge pra encontrar a renata, zonzo com os olhos pregados na roda gigante.
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e dando uma volta no meu quarteirão, vi que a cidade no frio ficou mais elegante. o felipe diz que se sente em montevidéu em 1948, faltando só um sobretudo de marta zibelina. não conheço montevidéu nem tinha nascido em 1948. mas vi que, na pressa pra entrar nas casas, a cidade deixa um rastro de liberdade pra trás. depois de 40 anos de tropicália, já é possível ser uma bicha louca em são paulo.
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na performance de eder santos ontem no itaú cultural, a atriz gritou: isso tudo é muito chato. essa exposição é chata, essa sala é chata, esse evento é chato. esse fio é sem voltagem. verdade, tudo foi muito chato.
o ânimo de quem foi mimetizava o asfalto gélido da paulista lá fora e as árvores imóveis de concreto cristalizado. a milu villela reclamava num canto que as pessoas iam ao mam só pra comer no restaurante e nem passavam pela exposição. na saída, ela esnobou dizendo que era voluntária em várias instituições. isso depois de pedir desculpas por não cumprir com várias promessas feitas a artistas e representantes filantrópicos.
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conversei de novo com o dono da triângulo. conheci o ricardo trevisan, grisalho e de terno impecável, na última festa de aniversário da lúcia koch. hoje, por telefone, ele me recomendou um vídeo no youtube da festa do assume vivid astro focus na galeria dele ano passado. lembro que naquele dia todo mundo da bienal tinha passagem marcada por lá, menos eu. não consigo lembrar o que poderia ter sido mais importante.
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mas mais do que a balada na triângulo, conferi no youtube imagens da exposição sleepwalkers do doug aitken no moma. nada mais site specific do que isso. o cara é brilhante e volta agora pra são paulo no videobrasil em setembro.
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e falando em site specific, adriana duarte, mais conhecida como xiclet, contou segredos da sua casa e revelou que tá indo pro rio pra conseguir um espaço expositivo por lá. me disse hoje que na mostra que montou no parque lage, na cidade maravilhosa, teve que convencer o responsável a deixar os artistas entrarem com três engradados de cerveja. e domingo tem moqueca lá na fradique coutinho.
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o artista uruguaio joaquín torres garcía desmonta um arsenal. passo a passo, ele expõe no tomie ohtake suas linhas, planos, pontos, formas e símbolos _a herança cultural do artista que preenche a forma vazia. depois acrescenta volume e reflete sobre a estrutura de cada quadro: layout de componentes sobre uma volumetria simbólica. são nuvens que se mesclam aos alicerces das construções e a água do mar que se funde à madeira na composição de um barco.
o vini achou que o artista vai contra o estruturalismo ao colocar a estrutura em paralelo à forma e ao conteúdo, negando a idéia de estrutura presente em todos os pontos, na forma, no conteúdo e no símbolo. só acho que torres garcía foi mais simples que isso e mostrou cada arma do artista na ordem lógica para a construção dos quadros, daí seu construtivismo universal.
na mostra que abriu ontem, agnaldo farias também trouxe quadros de cristina canale e sérgio sister. de um lado da galeria, as telas que lembram a incompletude formal dos young british artists. as imagens têm aquele aspecto de polaróide antes de revelar, uma mancha colorida em formação suspensa. do outro lado, o que pareciam os instrumentos na composição formal dos quadros. só molduras vazias e linhas retas de cor.
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jantamos num fast food árabe ali perto da pedroso. vieram meninos da secretaria de cultura e horas depois foi preciso abortar um pesadelo. o céu desabou sobre a consolação. chegando em casa, vi que por baixo da roupa ainda estava seco, a pele áspera como o concreto da calçada.
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este foi o mês de julho mais chuvoso dos últimos 13 anos na cidade em que até as freqüências de rádio se amontoam. o will ficou surdo do ouvido esquerdo e a cabeceira da pista desmoronou ontem em congonhas.
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na festa da simples ontem na ouro fino, encontrei a soraia. ela decidiu trocar a cobertura de artes plásticas por uma carreira acompanhando o futuro dos créditos de carbono. o chico reclamou da vogue e eu aproveitei pra conhecer o douglas, novo editor da revista.
a nova redação da simples fica no último andar da galeria ouro fino. o douglas diz que o endereço é propício pra encontrar frilas e colaboradores. sempre aparece um fotógrafo querendo mostrar seu trabalho.
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teixeira coelho lembrou no mais desse domingo que o aeroporto de congonhas tinha um céu interno, um teto com nuvens pintadas à moda dos palacetes italianos dos séculos 16 e 17. no mesmo caderno, outros autores lembram que o café do aeroporto era o único que funcionava 24 horas por dia e tinha vista para a pista: a atração eram pousos e decolagens.
além do maneirismo do teto, a obsessão com a máquina de voar é outra conexão da paulicéia com os italianos. impossível não lembrar do manifesto de marinetti ao se debruçar sobre o ritual dos bailes e recepções diante da pista de pouso do aeroporto.
perdi a conta de quantas vezes peguei avião em congonhas, mas a impressão é sempre aquela de deixar e voltar para um ponto móvel suspenso no espaço. o saguão do aeroporto na zona sul é pivô de toda a engrenagem do país. o café envidraçado do lounge reúne os agentes de toda negociação e concentra num único lugar as vontades financeiras e sonhos de luxo de um povo miserável.
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a augusta ainda se espreguiça no domingo à tarde. são as primeiras marteladas e britadeiras que retomam as obras na calçada, os loucos que se recuperam da ressaca e gente saudável que saiu pra ver o sol. tem feito um sol lindo esses dias na paulista, uma luz que dá a impressão que a calçada é toda metálica. e eu preciso comprar novos óculos de sol.
as garçonetes do café ainda não acordaram e os primeiros clientes folheiam revistas na tarde trôpega. passa um homem sem camisa na rua. a mulher que reclama ao celular sobre a tradução pro francês de um texto vietnamita deixa o garfo cair e arregala os olhos em direção à janela pra ver o homem passar. a luz se dilata em torno dos dois por um instante menor que um segundo.
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ontem teve festa em cima da amp, na esquina da augusta com a oscar freire. fui com a isa e o will. tavam lá a renata, a mariana, o dani, o júnior, o miguel da contigo e o márcio da pinacoteca. tomamos vodka com suco de fruta e energéticos. o ar tava pesado e as luzes, vermelhas.
a renata contou os detalhes do assalto. entraram pela varanda e roubaram computadores e equipamento fotográfico. ela se recupera como sempre e aparece nas festas com novo corte de cabelo e uma bolsa estilo chanel que ela achou pendurada numa árvore perto da augusta com a avanhandava. com certeza fazia sol naquela tarde de brechós abertos.
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a galeria vermelho virou nova balada. o fernando oliva abriu na última sexta a exposição comunismo da forma com o marcelo rezende. os dois receberam uma galera no vernissage pra curtir o som e dar uma olhada nos vídeos reunidos por earl miller e os dois curadores.
passei a noite conversando com o alcino, o oliveros, estilistas da néon, a adriana, o oliva e a teté, que apareceu por último. só no debate do dia seguinte, um sábado de temperatura oscilante e choques térmicos na paulista, que atentei pro fato de tudo isso e essa revolução youtube estar levando a um retorno à videoarte dos anos 70. tudo aquilo que bruce nauman e vito aconcci fizeram pode voltar agora em vídeos de tomada única e parca edição. mas ainda estamos longe de um consenso.
a giselle beiguelman estava lá e deu outros palpites. no fim dessa semana agora, ela vai montar seu fast/slow scapes na emma thomas. o trabalho já passou pelo paço das artes, onde a gente discutiu aquela história do drum n’ bass como sonoridade ilustrativa para a modernidade.
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e fui ver em busca da vida do jia zhang-ke. não gosto de generalizar, mas, como outros filmes dessa levada oriental, tive a impressão de ver algo documental, um filme cujo objeto foge ao controle e às vontades do diretor. a quase ausência de cortes, planos extensos e o caráter teatral que parece fazer o filme deslizar dão a impressão de um registro a céu aberto de tudo aquilo que de fato aconteceu ou poderia ter acontecido independente do roteiro.
uma china em demolição, revolução constante pra ceder lugar para a nova e planejada pujança econômica, dá o tom de seqüências que se fundem umas às outras. o filme reverte a linearidade das relações causa e conseqüência e vai expondo quadros cuja ordem parece não interessar tanto. são vários os momentos de virtuosismo luminoso, um retorno original ao cânone neo-realista.
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ando sem tempo pra escrever e sem muita vontade. passei a última semana fora da cidade visitando pólos de confecção em minas, no interior e no paraná. ando mais interessado que eu imaginava pela indústria têxtil. a tentativa de entender tudo isso e dar ordem às coisas sai nesse domingo em suplemento do jornal.
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mas antes o processo. o que segue é uma nota que escrevi sentado no café do aeroporto de maringá. o saguão se enchia de gente entediada na primeira tarde de sol depois de uma semana de tempestades. das janelas do aeroporto, só o vazio mais imenso que eu já vi e um céu azul com contornos dourados no horizonte:
acabo de ler, e reconheço que tarde demais, prefácio do livro que italo calvino chamou de último poema de amor às cidades. aconteceu ontem na cidade que eu mais amo no mundo a maior tragédia da história da aviação brasileira. um airbus da tam derrapou na pista de congonhas e atingiu um prédio do outro lado da washington luís. explodiu pouco depois e matou os quase 200 passageiros e funcionários do prédio.
agora espero no aeroporto de maringá pelo avião que deixará guarulhos para levar mais 170 pessoas daqui para congonhas. vi as imagens do acidente ontem no jornal nacional no hotel em cianorte. uma tempestade rugia lá fora e golpeava os edifícios com raios espantosos como a vastidão das propriedades rurais dali.
telefonei para colegas na redação. até a cátia seabra foi pro aeroporto. o will e o rafael deram plantão na porta do iml. eu me retorcia de ansiedade no quarto asséptico de luz fluorescente do hotel.
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é só mais um registro.
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ontem passei o dia conversando sobre a morte do cinema com peter greenaway. aqui em são paulo, ele não deixou as maletas de lado e viveu seu próprio tulse luper mais uma vez. concordo com ele quando diz que foram os mestres do fim do barroco que inventaram o cinema com o chiaroscuro e o domínio da luz artificial. quando vi as telas de rembrandt no rijksmuseum em amsterdã, não prestei atenção em nada além do foco seletivo e o contraste entre luz e sombra. não por acaso, greenaway fez um filme sobre rembrandt que estréia logo mais no festival de veneza.
o dia terminou com philippe barcinski me dizendo que ainda acreditava no velho cinema. vou ter que concordar com ele. as possibilidades ainda são muitas, mas faz bem um agitador nos moldes de greenaway pra fazer cada cineasta repensar o que está fazendo.
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hoje a galeria vermelho abriu uma série de performances e novas instalações. uma mulher vai viver num cubo de vidro no segundo andar. uma máquina no primeiro piso vende obras de arte a r$ 5. ricardo oliveros dançou no pátio em frente à galeria.
fui tomar um açaí com o will na brisa do fim da paulista. depois aproveitei pra conversar com a mari sobre os rumos do jornalismo enquanto engolia depressa o couvert do sujinho. a paulinha esteve em são paulo por menos de 24 horas pra acompanhar a conclusão de curso do ivan. e já voltou pro rio.
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no marais, um jovem discorre em francês sobre a série de coincidências que tornam o garoto que só fala inglês sentado num ateliê o cara mais importante na vida dele. no faubourg saint-denis, um menino cego consegue enxergar com precisão gráfica o amor que sente pela namorada. são os episódios de gus van sant e tom tykwer pro paris, te amo.
tykwer não surpreende, mas faz uma chuva adequada de verbos no infinitivo e imagens aceleradas que atravessam o tempo num golpe só. é assim que eu enxergo paris, com tantos recortes simultâneos que é possível sentir amor e ódio na mesma esquina.
olivier assayas mostra o vício de uma atriz num set do quartier des enfants rouges. me lembra aquela sensação que dá ao caminhar à noite pela rue des archives ou pigalle: tudo escorre à margem do resto da cidade, o ar morde ácido as narinas e todos saem em busca de orgasmos noite adentro.
lembrei também os tumultos e transtornos que passei por lá e toda a potência de cada bairro. são os ratos que se embaralham à noite pelas calçadas, o frio que brota do sena nas noites de inverno e congela os bancos em volta da île st. louis e toda a algazarra de montmartre.
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foi isso que escrevi na última vez que estive em paris: je me suis promené pour l’île st. louis aujourd’hui et j’ai remarqué que paris avait l’air melancolique. la ville est lourde sur mes épaules. je n’arrive pas à expliquer ma tristesse et j’ai envie de disparaître. j’ai pleuré en marchant sur le quai st. michel. aujourd’hui a été peut-être la journée la plus lourde de ma vie.
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o balé da cidade estreou duas coreografias na última quinta no municipal. khaos foi bem resolvida, com uma proposta fechada em movimentos diretos e uma trilha que caiu bem. a segunda, dicotomia, ganhou na cenografia e iluminação precisas, mas sofreu com excessos e certos espasmos cafonas. a divisão sugerida pelo título ficou evidente no palco: muita embalagem pra pouco conteúdo.
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débora duarte e elenco subiram no palco do teatro frei caneca na sexta pra estréia da ratoeira. a peça recordista em número de encenações em londres ganhou uma versão brasileira sem grandes méritos nem grandes deslizes. tudo na montagem se guia pela convenção da narrativa clássica pra conduzir o whodunnit inconfudível da agatha christie. foi bom pra abrir a noite pós-fechamento.
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as duas últimas exposições que eu vi tentam definir um lugar no espaço ou recortar um intervalo no tempo. ontem o itaú cultural comemorou dez anos de arte eletrônica com champanhe e docinhos no vernissage de memória do futuro. hoje, cinco quadras pra baixo da henrique schaumann, a galeria oeste abriu quase nordeste.
numa das salas escuras do segundo andar do itaú, raquel kogan montou uma seqüência de números refletidos no chão espelhado. não foi intenção da artista, mas as vibrações do minimal que explodia lá embaixo tornavam mais tenso o desfilar dos números brancos sobre fundo negro. fora isso, a mostra só impressionou com alguns momentos de fusão do orgânico com o metálico produzido em fábrica.
um dia mais tarde e nos nervos da confluência de pinheiros com a vila madalena, a oeste reuniu jovens artistas nordestinos em seu espaço branco envidraçado. nada chamou a atenção. tudo parecia se apegar demais a conceitos esvaziados pela fraqueza estética do conjunto final. yuri firmeza documenta uma performance nu com uma árvore. waléria américo se apresenta enchendo um balão vermelho em frente ao mar azul.
o mais sintético dos documentos não estava pregado na parede do cubo branco. quando fui deixar a taça de cosmopolitan na cozinha da galeria, achei um papel com o resumo das obras: milena travassos – cubos glass; yuri firmeza - árvore nu; waléria américo – red balloons. só isso bastava. era um papel branco escrito à mão, com garranchos mais verdadeiros que as obras.
e num dos quadros expostos, a seguinte frase me lembrou muita coisa: não sei desenhar, mas aprendi a manusear facas. e lembro agora também a frase do presidente lula de que não se combate o crime com pétalas de rosas.
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na ilustrada de amanhã, jim dodge declara seu amor por kurt vonnegut e se prepara para dividir uma mesa da flip com will self. na verdade, dodge diz que gostou de vonnegut porque ele parecia mark twain e porque sua filha edie era muito interessante.