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é duro enterrar um amor que morreu. mas descobri que dói também abortar um amor antes dele nascer. nem sei se o que sentia era amor. também não vou ficar sabendo. dói. faz pouco tempo decidi escrever para um antigo amante, o que assina parte dos versos com que defini essa tentativa fútil de escrever, desculpa tola para um diário. vale muito mais minha tinta no papel, mas isso aqui é tribuna pública, virtual, anônima. em todo caso, a resposta dele, ele sim um amor que morreu, não com murmúrios, mas com estrondos, foi que nada podia fazer, que nada quer mais. não importa. nem eu queria, mas ele se retira para se dedicar a uma vida conjugal que lhe toma toda a energia. e assim vai.
agora eu derramei as poucas lágrimas por um amor que não sei se é amor, um romance tolo feito para preencher buraco, a pessoa errada antes que venha acerta. assim me livro do estorvo, do peso. não quero porque dói. e vou começar a ignorar, porque é impossível evitar a verdade. estamos zoados.
impossível saber quando morre o amor até que ele agoniza diante dos olhos, até que ele grita que morreu e cai duro arrancando todas as lágrimas que conseguem se juntar num instante, bem na curva dos pulmões, no céu da boca, no canto dos olhos. não sobra nada até que a gente acha que tem tudo na mão, ou acha que o insuficiente vai juntando poeira até virar pérola em algum lugar e vencido como troféu. então brindamos a morte incerta. e erguemos a cabeça com orgulho de ter levado mais uma bala e sobrevivido pra contar a história. é esse raspão, e todos os chupões que seguem, que gostamos de exibir nas rodas de veteranos. quantas balas é possível levar numa só vida? e vale subir para depois descer?
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eis a verdade: o amor que morre não deixa nenhuma nostalgia, e eu diria mesmo, não deixa nada. ou por outra: deixa o tédio. o que nos fica dos amores possuídos e passados é simplesmente o tédio, talvez o ressentimento, talvez o ódio. abominamos o ex-ser amado. intimamente, nós o acusamos de ter destruído o nosso sonho. e vamos e venhamos: que coisa atroz é o amor que deixa de sê-lo. mas o que eu queria dizer é o seguinte: há um equívoco na valsinha nostálgica.
a morte de um amor é pior que a morte pessoal e física. só uma coisa espanta: que se possa sobreviver a um amor.
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Erykah Badu, aquela negra, magérrima, do turbante e voz incomparável, canta que é esperta. é aguda até não poder mais e açucarada até afogar todas as mágoas. as notas deslizam, são trovões no breu, incontornáveis. é esperta porque sabe que seus peitos são caídos, sabe que seu vestido não vale nada, mas sabe que o palco é só dela, que o turbante e os alfinetes que sustentam toda sua extravagância de fachada são teias finas de chumbo. Badu não tem algoz, antecipa os ataques porque se expõe, deita no chão, flanco aberto.
this is how I look with out makeup / and with no bra my ninies sag down low / my hair ain’t never hung down to my shoulders / and it might not grow / ya’ never know
but I’m clever when I bust a rhyme / I’m cleva always on ya’ mind / she’s cleva and I really wanna grow / but why come you’re the last to know?
I got a little pot in my belly / and nowadays my figure ain’t so fly / my dress ain’t cost nothin’ but seven dollars / but I made it fly / and I’ll tell ya why
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Billie Holiday, a voz mais sofrida do jazz _e sem dúvida a mais bela de todas_ era uma gorda de peitos enormes, sem o menor talento para escolher seus vestidos. levou tudo na voz e na rima. gastou seus dólares fruto das noites de cabaré em novos vestidos, de gosto menos duvidoso. mas ninguém se lembra. depois, nenhum vestido podia importar para quem cantou “Strange Fruit”.
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aqui, no planeta fome, Elza Soares estreou na TV com um vestido remendado, alfinetes entrando na carne magra dos flancos, toda desengonçada. era a voz que tomava conta. é outra dessas grandes mulheres que não fizeram esforço para ser só isso, uma grande mulher.
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uma hora e meia no táxi da Cidade Universitária até a Rebouças é tempo suficiente para pensar em James Dean, na chuva e no tempo azul que fez hoje. eu me emocionava mais com as coisas. lendo o texto traduzido na “Rolling Stone”, sobre um dos primeiros filmes de Dean, me deu vontade de chorar quatro vezes. eu não vi o filme. e também tenho dificuldades em me comover com um texto que já não é o original, mas foram três ou quatro vezes de quase choro, bem no cruzamento da Rebouças com a Paulista. disfarço para o taxista não olhar e vejo o ponto de ônibus apinhado de gente a essa hora da noite.
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e a chuva em São Paulo não pára.
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nos últimos dias, não paro de pensar nos banhistas de Cézanne, nos dias chuvosos que passei em Dublin e neste parágrafo do “A Portrait of the Artist as a Young Man”:
he recognised their speech collectively before he distinguished their faces. the mere sight of that medley of wet nakedness chilled him to the bone. their bodies, corpsewhite or suffused with a pallid golden light or rawly tanned by the sun, gleamed with the wet of the sea. their divingstone, poised on its rude supports and rocking under their plunges, and the roughhewn stones of the sloping breakwater over which they scrambled in their horseplay gleamed with cold wet lustre. the towels with which they smacked their bodies were heavy with cold seawater; and drenched with cold brine was their matted hair.
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faz um tempo que fotografei um menino pelado com os versos de um poema de Walt Whitman projetados sobre a pele. eram esses, do “Leaves of Grass”:
the beards of the young men glistened with wet, it ran from their long hair,
little streams passed all over their bodies.
an unseen hand also passed over their bodies,
it descended tremblingly from their temples and ribs.
the young men float on their backs, their white bellies swell to the sun … they do not ask who seizes fast to them,
they do not know who puffs and declines with pendant and bending arch,
they do not think whom they souse with spray.
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é com alarde que dou notícias velhas. chegou a era do rádio, um que não funciona. numa tarde vazia andando pela São João, gastei os tubos numa vitrola empoeirada dos anos 50. não toca nada, nem parece haver esperança que algum som saia dali, mas é desses móveis quadrados, um grande caixote ortogonal, de madeira, e quatro pernas com encaixes que lembram dedais metálicos nas extremidades.
faz parte das coisas que faço para me enganar. se o amor evaporou e fica cada vez mais evidente que não consigo me apaixonar por pessoas que gostam de mim, é chegado o momento de me iludir com promessas de uma retomada, a redescoberta da vida, a vontade que se renova, aquela coisa de ir à feira da Guimarães Rosa do outro lado da praça e comprar um peixinho dourado, nem que seja uma breve promessa; sei que ele vai morrer.
então é a máquina de expresso que rondou meus pensamentos, essa que casaria muito bem com a vitrola inutilizada, e também a chaise longue de camurça, que disputei na loja com um amigo. são todas as coisas belas que suplantam, aos olhos, a sensação de pertencimento. achar que o carcomido das paredes mofadas dá verniz de legitimidade à existência de agora, vazia.
é tudo lastro, a chaise longue do Le Corbusier, o azul retrô da máquina Nespresso, a vitrola pré-era Braun. as coisas que podiam ter sido e que não foram. nunca tive, nunca vivi. e garranchar com os dedos sujos de suco de tangerina _base de uma nova dieta, mais saudável para tempos sombrios_ no teclado imaculado deste MacBook é outra necessidade premente. isso tudo é só para emoldurar um vazio que se ancora naquilo que se pode chamar glamour, se houvesse ali um segundo lastro, a grana, mas essa escorre sem deixar rastro.
em cima da vitrola, que serve de aparador no canto da minha parede descascada cor creme, ficou o livro que reproduz as gravuras ukiyo-e de Hiroshige. são as cem vistas de Edo, antiga Tóquio, na técnica fugaz que os japoneses inventaram para retratar um mundo flutuante. o monte Fuji vira a catedral de Rouen nas mãos dele, tão delicadas que é impossível não pensar nos caminhões agora liberados para trafegar só à noite _os burros de carga metálicos que descem desembestados pelas vias do centro numa noite sem luz.